Mudanças entre as edições de "Umbanda"

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{{Info/Religião
 
| nome                    = Umbanda
 
| símbolo                  = Bandeira da Umbanda.jpg
 
| símbolo_tamanho          = 250px
 
| símbolo_legenda          = Bandeira da Umbanda
 
| imagem                  =
 
| imagem_tamanho          =
 
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| divindade                =
 
| fundador                = [[Zélio Fernandino de Moraes]]
 
| origem                  = 16 de novembro de 1908
 
| ramificações            =
 
| tipo                    = [[Novo movimento religioso]]
 
| religiões_relacionadas  = [[Religiões afro-americanas]], [[religiões tradicionais africanas]], [[candomblé]], [[religião iorubá]], [[espiritismo]], [[cristianismo]]
 
| adeptos                  = {{circa}} 400 mil pessoas<ref name="adeptos">{{citar web |url=https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44297088|titulo=Umbanda completa 110 anos em meio a ataques e queda no número de devotos|editor=[[BBC Brasil]]|data=2 de junho de 2018|acessodata=4 de abril de 2023|autor=André Bernardo}}</ref>
 
| membros                  = [[Umbandista]]s
 
| escrituras              =
 
| lugares_sagrados        =
 
| lingua_litúrgica        =
 
| templos                  = [[Terreiro]]
 
| clero                    =
 
| cisma                    =
 
| predominância_geográfica =
 
| mapa                    =
 
| legenda_mapa            =
 
}}
 
'''Umbanda''' é uma [[religião afro-brasileira]] que sintetiza o culto aos [[Orixá]]s e aos demais elementos das [[religiões africanas]], em especial [[Religião iorubá|Iorubá]] e [[Bantus|bantu]] com [[Religião indígena|indígenas]] e [[Cristianismo|cristãs]], porém sem ser definida por eles.<ref name="Barnes1997">BARNES, Sandra T. (1997). [http://books.google.com/books?id=8OWjkR-1btMC&pg=PA91 ''Africa's Ogun: Old World and New'']. Indiana University Press. p. 91. ISBN 0-253-21083-6.</ref>
 
  
Estruturada como religião no início do século XX em [[São Gonçalo (Rio de Janeiro)|São Gonçalo]], [[Rio de Janeiro (estado)|Rio de Janeiro]], a partir do [[sincretismo]] entre [[candomblé]], o [[catolicismo]] e o [[espiritismo]] que já se vinha operando ao longo do final do século XIX em quase todo o Brasil. É considerada uma "religião brasileira por excelência" caracterizada pela síntese entre a tradição dos [[orixá]]s africanos, os [[santos católicos]] e os [[Mitologia guarani|espíritos tradicionais de origem indígena]].{{harvref|HOPKINS|2014|p=302}}{{harvref|FERREIRA|1986|p=1736}}
 
 
O dia 15 de novembro é considerado a data do surgimento da Umbanda como religião organizada,{{harvref|BARBOSA JR.|2014|p=68}}{{harvref|MARTINS|2007|p=17}} e foi oficializado no Brasil em 18 de maio de 2012 pela Lei 12.644.<ref name="seppir">{{Citar web | url=http://www.seppir.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2012/05/presidenta-institui-dia-da-umbanda|título=Presidenta institui Dia da Umbanda|acessodata=27/6/2015|autor=Coordenação de Comunicação|data= 18/05/2012|formato= |publicado= Website da Secretaria de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR|páginas=|língua=|citação=}}</ref> Em 8 de novembro de 2016, após estudos do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), a umbanda foi incluída na lista de patrimônios imateriais do Rio de Janeiro por meio de decreto.<ref>VIEIRA, Isabela. [http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-11/umbanda-e-declarada-patrimonio-imaterial-do-rio-de-janeiro ''Umbanda é declarada patrimônio imaterial do Rio de Janeiro''], [[EBC]], 08/11/2016</ref>
 
 
== Etimologia ==
 
"Umbanda" ou "Embanda"<ref name=":19">''Cabula e Macumba'', Valdeli Carvalho da Costa, Síntese nº 41 (1987) - Pag 67. "Os cultos, "trabalhos" ou "mesas" realizavam-se nas matas. Aqui, outra identidade com a Macumba. O mesmo nome "trabalho" é usual na Macumba, para designar os rituais mais secretos, semelhantemente à Cabula, realizados também "nas matas". O chefe de casa "mesa" chamava-se "embanda", que é o nome do sacerdote nas religiões banto. Os chefes dos terreiros de Macumba, em torno de 1934, quando Arthur Ramos descreve o "terreiro" do velho Honorato, chamavam-se também "embandas", "umbandas" ou "pais-de-terreiro" (...). Merece ressaltar que o termo "umbanda" será a designação de um dos ramos da Macumba, após o seu desdobramento, por influência do Espiritismo Kardecista. Na Cabula, com futuramente na Macumba, o "embanda" era o chefe doutrinador da comunidade."</ref> são oriundos da língua [[Kimbundu|quimbunda]] de [[Angola]], significando "magia",{{harvref|FERREIRA|1986|p=1736}} "arte de curar".<ref name=":20">Segundo a "Gramática de Kimbundo" do professor José L. Quintão, citada na obra "O que é a Umbanda", de Armando Cavalcanti Bandeira, editora Eco, 1970</ref> Há também a suposição de uma origem em um [[mantra]] na [[língua adâmica]] cujo significado seria "conjunto das leis divinas"{{harvref|ITAOMAN|1990|p=100 - 101}} ou "deus ao nosso lado".{{harvref|MARTINS|2007|p=17}}
 
 
Também era conhecida a palavra "''mbanda"'' significando “a arte de curar” ou “o culto pelo qual o sacerdote curava”, sendo que "mbanda" quer dizer “o Além, onde moram os espíritos”.<ref name="Azevedo">Janaina Azevedo. [http://books.google.com/books?id=MRdTUmKR39IC&pg=PA132 ''Tudo o que você precisa saber sobre Umbanda'']. Vol. I. p. 132. ISBN 978-85-99187-91-3.</ref>
 
 
Já as vertentes caracterizadas pela negação de alguns elementos africanos, como a ''Umbanda Branca'', declarou após o I Congresso do Espiritismo de Umbanda de 1941{{harvref|SMITH|2004|p=271}} que "Umbanda" vinha das palavras do [[sânscrito]] ''[[om|aum]]'' e ''bhanda'', termos que foram traduzidos como "o limite no ilimitado", "Princípio divino, luz radiante, a fonte da vida eterna, evolução constante".{{harvref|FEDERAÇÃO ESPÍRITA DE UMBANDA|1942|p=21 - 22}}
 
 
== História ==
 
 
=== Antecedentes ===
 
A formação da Umbanda está profundamente vinculada às dinâmicas históricas e sociais que marcaram o período colonial e pós-colonial no território hoje denominado Brasil. Antes de sua formalização no início do século XX, práticas espirituais de matriz africana, indígenas e europeias se desenvolveram e interagiram em um ambiente de sincretismo religioso, resistindo às opressões e aos processos de aculturação impostos pelas estruturas de poder vigentes.
 
 
A seguir, serão explorados dois dos principais antecedentes históricos e culturais que contribuíram para a formação da Umbanda: o '''Calundu''', representando as práticas de origem africana que influenciaram o território brasileiro desde o período colonial, e a '''[[Cabula]]''', prática de cunho espiritual que se desenvolveu especialmente no contexto das comunidades afrodescendentes e que apresenta traços em comum com os primeiros ritos umbandistas.
 
 
==== Século XVII - Calundu ====
 
[[Ficheiro:Zachariaswagnercalundu.jpg|miniaturadaimagem|Pintura de [[Zacharias Wagener]] (ca. 1634 - 1641) retratando um Calundu em Pernambuco]]{{Artigo principal|Calundu}}
 
As primeiras comunidades religiosas afro-brasileiras que se têm documentadas surgiram ainda no [[século XVII]]. É provável que a mais antiga documentação de práticas rituais africanas no Brasil seja uma pintura de [[Zacharias Wagener]] datada, no mais tardar, de 1641<ref>{{Citar web|ultimo=Ruy|primeiro=José Carlos|url=https://vermelho.org.br/2014/05/23/do-calundu-ao-candomble/|titulo=Do Calundu ao Candomblé|data=2014-05-23|acessodata=2023-02-06|website=Vermelho|lingua=pt-BR}}</ref>. Praticadas majoritariamente por escravizados, formando comunidades religiosas e práticas de culto ficaram conhecidas como [[Calundu]].<ref name="Não-nomeado-xXC1-1">{{citar livro|título=As religiões africanas no Brasil|ultimo=BASTIDE|primeiro=Roger|editora=Pioneira|ano=1985|edicao=2|local=São Paulo}}</ref> Os Calundus surgiram a partir das chamadas ''rodas de batuques,'' onde os escravizados dançavam, tocavam atabaques em seus momentos de folga ao redor das senzalas.<ref name="Não-nomeado-xXC1-1"/> Eram ostensivamente perseguidos pelas autoridades civis e colonizadores portugueses.''<ref name=":522">{{citar livro|título=Umbanda, Uma Religião Sincrética e Brasileira|ultimo=COSTA|primeiro=Hulda Silva Cedro da|editora=Pontifícia Universidade Católica de Goiás|ano=2013|local=[[Goiânia]]}}</ref>'' Existia no Calundu o sincretismo entre as crenças africanas, com [[Pajelança|Pajelança indígena]] e [[Igreja Católica|Catolicismo]].<ref name="Não-nomeado-xXC1-1"/>
 
 
Um documento da Inquisição Portuguesa de 1646 demonstra a presença de um sacerdote de Angola atuando na Capitania da [[Bahia de Todos os Santos]], chamado Domingos Umbata, e descreve uma [[Gira]] de [[Inquice]] numa sessão de Calundu:  "[...] ''Com uma tigela grande cheia de água, com muitas folhas e uma cascavel, um dente de onça, viu a testemunha algumas negras que se estavam lavando naquela tigela para abrandar as condições de suas senhoras” e outra noite foi à sua casa, pela meia noite ver “uma grande bula e matinada com muita gente e ele só falava língua que ele (o denunciante) não entende”. Na tigela com água punha também carimã, com a qual fazia uma cruz e círculo à volta, depois botava-lhe uns pós por cima e a mexia com uma faca e ficava fazendo como se estivera ao fogo e inclinando-se sobre a tigela, falava com ela, olhando de revés para as negras presentes em sua língua [...]''"<ref>{{citar livro|url=https://periodicos.ufrn.br/mneme/article/download/1080/952/|título=Feiticeiros de Angola na Inquisição Portuguesa|ultimo=Mott|primeiro=Luiz|editora=MNEME – Revista de Humanidades|ano=2011|local=Caicó}}</ref>
 
[[Ficheiro:Batuque de Umbigada de Piracicaba - 0058.jpg|miniaturadaimagem|Rito africano na tradição do Candomblé]]
 
O Calundu vai se dividir em duas vertentes importantes: a [[Cabula]] e o [[Candomblé Banto|Candomblé Bantu ou Angola]].<ref name=":03">{{citar livro|título=O Mistério dos Orixás|ultimo=COSSARD|primeiro=Gisèle Omindarewé|editora=Pallas|ano=2008|edicao=2|local=Rio de Janeiro}}</ref> A [[Cabula]] sincretizava as crenças africanas do Calundu com o [[Igreja Católica|catolicismo]], [[Pajelança|pajelança indígena]] — sincretismo já existente no Calundu — e [[Espiritismo Kardecista|espiritismo kardecista]].<ref name=":522"/> Com o crescimento do número de escravizados vindos de diversos lugares, o Calundu passa a ser cultuado de forma mais elaborada, dando início ao [[Candomblé]], que manteve o ritualismo Bantu, com uma fraca sincretização com [[Igreja Católica|Catolicismo]].<ref name=":03" /><ref>{{citar periódico |url=http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/docalundu-ao-candomble.html |titulo=Do Calundu ao Candomblé |data=dezembro de 2005 |jornal=Revista de História |ultimo=SILVEIRA |primeiro=Renato da |local=São Paulo |edicao=5}}</ref>
 
 
Com a chegada dos povos [[Iorubás]], quetos, [[Oió (Nigéria)|Oiós]], [[Ijexás|Ijexá]], [[Ijebu Odé]], [[Ibadã|Ibadan]], [[Ebás|Egbás]] e [[Jejes]] que desejavam preservar com mais intensidade os elementos ritualísticos africanos de seus territórios de origem, — mas sem deixarem de utilizar o sincretismo católico como forma de se livrarem das perseguições feitas pelos colonizadores e pelas elites dominantes, — surgem as demais linhas do candomblé, como o [[Candomblé Queto|Candomblé-Ketu]] e o [[Candomblé Jeje|Candomblé-Jeje]].<ref>RODRIGUES, Raimundo Nina. O animismo fetichista dos negros baianos. Apresentação e notas de Yvonne Maggie e Peter Ffry; Fac-símile de artigos publicados na Revista Brasileira em 1896 e 1897. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/[[Editora UFRJ]], 2006.</ref> Com o tempo, os templos de cabula e banto que não aderiram aos sincretismos e às influências jejê-nagô existentes na sua versão [[Rio de Janeiro (estado)|fluminense]], passam a dar origem aos terreiros de ''Umbanda Angola e Almas'' e ''Umbanda Omolokô''.''<ref name=":522"/>''
 
 
==== Século XVII a XIX - Cabula ====
 
{{Ver também artigo principal|Cabula}}
 
Muitos estudiosos remontam as origens da Umbanda, de forma prática, aos rituais dos antigos centros de Cabula, conhecidos popularmente como "[[Macumba]]" já existentes desde o século XVIII.<ref name=":132">''Entre a Macumba e o Espiritismo: uma análise do discurso dos intelectuais de umbanda durante o Estado Novo'', CAOS - Revista Eletrônica de Ciências Sociais, Número 14 - Setembro de 2009. Pág. 60-85. "A manifestação de espíritos de negros e de índios, tão comuns na umbanda, já ocorria espontaneamente nos rituais da macumba desde meados do século XVIII. Longe de ser um culto organizado, a macumba era um agregado de elementos da cabula bantu, do candomblé jeje-nagô, das tradições indígenas e do catolicismo popular, sem o suporte de uma doutrina capaz de integrar os diversos pedaços que lhe davam forma. É desse conjunto heterogêneo, acrescida de elementos egressos do kardecismo, que nascerá a nova religião."</ref> Populares no [[Rio de Janeiro (estado)|Rio de Janeiro]], [[Minas Gerais]], [[Espírito Santo (estado)|Espírito Santo]], [[São Paulo (estado)|São Paulo]] e [[Bahia]], muitos terreiros de Cabula já sincretizavam [[Religiões tradicionais africanas|rituais africanos]] com [[Igreja Católica|catolicismo]] e [[Xamanismo|crenças indígenas]].<ref name=":022">{{Citar web |ultimo=Fernandes Trindade |primeiro=Diamantino |url=https://www.aldeiadecaboclos.com.br/o-culto-da-cabula/ |titulo=O Culto da Cabula |data=22 de janeiro de 2018 |acessodata=24 de setembro de 2021 |website=Aldeia de Caboclos |arquivourl=https://archive.is/RJf5p |arquivodata=24 de setembro de 2021}}</ref> Daí, [[Zélio Fernandino de Morais]] adapta rituais desses terreiros sob uma roupagem [[Espiritismo|espírita kardecista]], dando surgimento a Umbanda como religião organizada, que depois se conhece por ''Umbanda branca e demanda''.<ref name=":132" /> Os terreiros das zonas rurais e periferias urbanas conhecidos como Macumba Popular, e ainda hoje como Umbanda Popular, descendem dos terreiros de Cabula que não foram absorvidos pelo [[espiritismo]] de Zélio.<ref name=":022" /> Alguns ritos umbandistas como [[Omolocô]], Almas e Angola também surgiram a partir desses terreiros de Cabula, mas absorvendo mais influências do Candomblé.<ref name=":022" /> A Cabula se dividiu em dois grupos principais:
 
 
# Cabula Bantu: surgiu em meados do [[século XIX]], em [[Minas Gerais]] e na [[Bahia]] e é descendente direta do Calundu praticado pelos [[Escravidão|escravizados]].<ref name=":522" /> Espalhou-se pelos estados do [[Rio de Janeiro (estado)|Rio de Janeiro]] e [[Espírito Santo]], onde sofreu perseguição das elites cristãs até os dias de hoje.<ref name=":522" /> A Cabula Bantu sincretizava o Calundu, a [[Mitologia banta|religião Bantu]], com elementos do catolicismo, crenças indígenas e, já nas últimas décadas do século XIX, espiritismo.<ref name=":522" />
 
# Macumba Popular: surgiu no final do [[século XIX]], no [[Rio de Janeiro (estado)|Rio de Janeiro]] e espalhou-se rapidamente em [[São Paulo (estado)|São Paulo]] e [[Espírito Santo (estado)|Espírito Santo]].<ref name=":522" /><ref>{{citar periódico |titulo=O medo do feitiço |data=1986 |jornal=Revista Religião e Sociedade |ultimo=MAGGIE |primeiro=Yvonne |local=Rio de Janeiro |pagina=60-75}}</ref> Essa Macumba Popular do [[Rio de Janeiro|Rio]] diferenciava-se da Cabula Bantu de Minas e Bahia pela influências do ritualismo e práticas [[Jeje-Nagô|jejê-nagô]] e do [[Esoterismo ocidental|esoterismo europeu]] através de publicações como ''O Livro de São Cipriano da Capa Preta.<ref name=":522" />'' Tanto no Rio de Janeiro, como em São Paulo e no Espírito Santo, a Macumba agregava em si elementos religiosos dos mais variados tipos e origens como as crenças já populares no Brasil, as [[Imigração portuguesa no Brasil|luso-brasileiras]], as [[Imigração árabe no Brasil|árabes]], as [[Imigração francesa no Brasil|francesas]], as [[Ciganos|ciganas]], as [[Judaísmo no Brasil|hebraicas]] e tantas outras oriundas de várias partes do mundo.''<ref name=":522" />'' A Macumba era altamente sincrética ao agregar em si diversas concepções religiosas e diversidade ritualística nos terreiros.<ref name=":522" />
 
 
Por conta de seu sincretismo, esta Macumba Popular era frequentada por parte da elite como também pelas classes menos favorecidas e pessoas de diversas religiões e origens.<ref name=":522" /><ref>RIO, João do (João Emílio Cristovão dos Santos Coelho Barreto). ''As religiões no Rio''. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006: "A mistura na Macumba não estava presente somente nos mitos, ritos e doutrinas, mas também, estava no campo social que era totalmente heterogêneo. Frequentavam seus cultos pessoas de diversos níveis da sociedade, misturando-se no mesmo espaço, grandes empresários, altos funcionários do governo, delegados e policiais, com simples operários, favelados, ladrões, bandidos, assassinos, malandros gigolôs e homossexuais. Senhoras e moças brancas da alta sociedade com as domésticas pretas e as prostitutas".</ref> O jornalista João do Rio falará a respeito disso: "A mistura na Macumba não estava presente somente nos mitos, ritos e doutrinas, mas também, estava no campo social que era totalmente heterogêneo. Frequentavam seus cultos pessoas de diversos níveis da sociedade, misturando-se no mesmo espaço, grandes empresários, altos funcionários do governo, delegados e policiais, com simples operários, favelados, ladrões, bandidos, assassinos, malandros gigolôs e homossexuais. Senhoras e moças brancas da alta sociedade com as domésticas pretas e as prostitutas."<ref>RIO, João do (João Emílio Cristovão dos Santos Coelho Barreto). As religiões no Rio. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006:</ref> Desta Macumba se dividirão dois grupos principais: um atrelado ao [[espiritismo kardecista]], que irá abolir alguns [[Mitologia banta|elementos ''bantu'']] e [[Religião iorubá|iorubás]], como o sacrifício de animais e o uso de atabaques, dando origem à ''Umbanda branca e demanda'', de Zélio; e outro, a ''Umbanda Popular'', que continuou seu curso normal, mas relegado à marginalidade pela classe média e alta.<ref name="Não-nomeado-xXC1-1" />
 
 
=== Zélio Fernandino e o anúncio da Umbanda ===
 
{{Artigo principal|Zélio de Moraes}}[[Imagem:Zelio de moraes.jpg|thumb|esquerda|upright|[[Zélio Fernandino de Moraes]]]]
 
Por volta de 1907{{harvref|KLOPPENBURG|1991|p=35}}/1908 (15 de novembro de 1908){{harvref|MARTINS|2007|p=17}} (as fontes divergem quanto à data precisa), um jovem chamado [[Zélio de Moraes|Zélio Fernandino de Morais]], prestes a ingressar na [[Marinha]], passou a apresentar comportamento estranho que a família chamou de "ataques". O jovem tinha a postura de um velho dizendo coisas incompreensíveis, em outros momentos se comportava como um felino.{{harvref|BARBOSA JR.|2014|p=20}} Após ter sido examinado por um médico, esse aconselhou a família a levá-lo a um padre, mas Zélio foi levado a um centro espírita. Assim, no dia 15 de novembro, Zélio foi convidado a se sentar à mesa da sessão na Federação Espírita de Niterói,{{harvref|KLOPPENBURG|1991|p=35}}{{harvref|MARTINS|2007|p=17}} presidida na época por José de Souza.{{harvref|MARTINS|2007|p=17}}
 
 
Incorporou um espírito, levantou-se durante a sessão e foi até ao jardim para buscar uma flor e colocá-la no centro da mesa, contrariando a regra de não poder abandonar a mesa uma vez iniciada a sessão. Em seguida, Zélio incorporou espíritos que se apresentavam como negros escravizados e índios. O diretor dos trabalhos alertou os espíritos sobre seu atraso espiritual, convidando-os a sair da sessão quando uma força tomou conta de Zélio e disse:{{harvref|BARBOSA JR.|2014|p=21}}
 
{{quote|Por que repelem a presença desses espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens? Será por causa de suas origens sociais e da cor?|Caboclo das Sete Encruzilhadas}}
 
Ao ser indagado por um ''médium'' ele respondeu:{{harvref|BARBOSA JR.|2014|p=21}}
 
{{quote|Se querem um nome, que seja este: sou o [[Caboclo das Sete Encruzilhadas]], porque para mim não haverá caminhos fechados. O que você vê em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre e o meu nome era [[Gabriel Malagrida]].{{harvref|BAPTISTA|2008|p=9}} Acusado de [[bruxaria]], fui sacrificado na fogueira da [[Inquisição]] em [[Lisboa]], no ano de 1761. Mas em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como Caboclo brasileiro.|Caboclo das Sete Encruzilhadas}}
 
 
A respeito de sua missão, assim anunciou:{{harvref|PINN|2009|p=392}}{{harvref|MARTINS|2007|p=17}}
 
{{quote|Se julgam atrasados esses espíritos dos negros e dos índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho para dar início a um culto em que esses negros e esses índios poderão dar a sua mensagem e assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem o meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminho fechado para mim.|Caboclo das Sete Encruzilhadas}}
 
 
No dia seguinte, na residência da família de Zélio, na Rua Floriano Peixoto, nº. 30, no bairro [[Neves (São Gonçalo)|Neves]], reuniram-se os membros da [[Federação Espírita|Federação Espírita de Niterói]], visando comprovar a veracidade do que havia sido declarado<ref name="REIS">REIS, Samíramis. [http://books.google.com/books?id=ev37gNRH6bEC&pg=PA12 ''A nossa cabana'']. biblioteca24horas. p. 12. ISBN 978-85-7893-794-2.</ref> pelo jovem. Novamente incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que declarou que os velhos espíritos de negros escravizados e índios de nossa terra poderiam trabalhar em auxílio do seus irmãos encarnados, não importando a cor, raça ou posição social.{{harvref|MARTINS|2007|p=17}} Assim, neste dia se fundou o primeiro terreiro de umbanda chamado de [[Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade]].{{harvref|KLOPPENBURG|1991|p=35}}
 
 
O espírito estabeleceu normas como a prática de [[caridade]], cuja base se fundamentaria no Evangelho de Cristo e seu nome "allabanda",{{harvref|BARBOSA JR.|2014|p=18}} substituído por "aumbanda", e posteriormente se popularizando como "umbanda".<ref name="REIS"/>
 
 
=== Período intermediário: tentativas de unificação e rupturas na Umbanda ===
 
No ano de 1918, fundaram-se sete tendas para a propagação da Umbanda: Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia, Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, Tenda Espírita Santa Bárbara, Tenda Espírita São Pedro, Tenda Espírita Oxalá, Tenda Espírita São Jorge e Tenda Espírita São Gerônimo. Até a morte de Zélio, em 1975, mais de 10 mil templos foram fundados além desses iniciais.{{harvref|REIS|2010|p=38}} Em 1939, na tentativa de uma unificação, foi criada a União Espírita de Umbanda do Brasil.<ref name="Fonseca">FONSECA, Alexandre Brasil. [http://books.google.com/books?id=nnd0uOcaYRsC&pg=PA85 ''Relações e Privilégios: Estado, secularização e pluralismo religioso no Brasil'']. Editora Novos Diálogos. p. 85. ISBN 978-85-64181-05-2.</ref> A partir desse momento, somente as práticas que seguiam os fundamentos propostos pelo [[Caboclo das Sete Encruzilhadas]] incorporado em Zélio passaram a ser consideradas como Umbandistas pela ramificação [[Umbanda branca|branca]] e [[Espiritismo|espiritista]].{{harvref|MARTINS|2007|p=18}}
 
[[Ficheiro:Raimundo Alves dos Santos, umbandista e seu altar (Núcleo Cultura), Arquivo Público do Estado de São Paulo.jpeg|miniaturadaimagem|Retrato do umbandista Raimundo Alves dos Santos com seu altar em 1949. Item do acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP).]]
 
Em 1940, o escritor [[W. W. da Matta e Silva|Woodrow Wilson da Matta e Silva]] apresentou a Umbanda como ciência e filosofia, criando então a Escola Iniciática da Corrente Astral do Aumbhandan, a "Umbanda Esotérica" na Tenda Umbandista Oriental, em [[Itacuruçá]], no Rio de Janeiro.{{harvref|REIS|2010|p=19}} Em 1941 a UEUB organizou sua primeira conferência, o I Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda<ref name="Figueiredo2013">FIGUEIREDO, Luciano (2013). [http://books.google.com/books?id=PS1ZAQAAQBAJ&pg=PT120 ''História do Brasil para Ocupados'']. Leya Brasil, p. 120. ISBN 978-85-7734-434-5.</ref> como forma de tentar definir e codificar a Umbanda como uma religião em direito próprio e como uma religião que unisse todas as religiões, raças e nacionalidades. A conferência também promoveu uma dissociação das tradições afro-brasileira.{{harvref|SMITH|2004|p=271}} Os participantes concordaram em fazer uso das obras de [[Allan Kardec]] como fundação doutrinária da Umbanda, ao mesmo tempo que se dissociavam das outras tradições religiosas afro-brasileiras.<ref name="MacLachlan2003">MACLACHLAN, Colin M. (2003). [http://books.google.com/books?id=8m3RcnkKwJgC&pg=PA67 ''A History of Modern Brazil: The Past Against the Future'']. Rowman & Littlefield. p. 67. ISBN 978-0-8420-5123-1.</ref> Ainda assim, os espíritos fundadores da Umbanda, os Caboclos e os Preto Velhos ainda foram mantidos como espíritos altamente evoluídos.
 
 
Em termos gerais, os participantes do Congresso concentraram-se em remover as raízes africanas e afro-brasileiras da Umbanda. Para tanto, usaram como artifícios mesmo teorias científicas ultrapassadas, como a do continente submerso de [[Lemúria]]{{harvref|REIS|2010|p=29}}, por onde a Umbanda teria cruzado ao sair do seu berço hipotético, o Oriente, em direção à África, onde se teria degenerado em fetichismo,<ref name="MacLachlan2003" /> em cuja forma foi trazida ao Brasil pelos [[escravo|escravizado]]s.{{harvref|FEDERAÇÃO ESPÍRITA DE UMBANDA|1942|p=44 - 47}} A influência africana na Umbanda não foi de todo rejeitada, haja vista a manutenção dos Pretos-Velhos e Caboclos. Mas foi uma assimilação gritantemente racista<ref>{{Citar periódico |url=https://periodicos.ufrn.br/interlegere/article/view/29459 |título=Racismo religioso, branqueamento e legitimidade: o caso da primeira onda da umbanda no Rio de Janeiro do início do século XX |data=2022-12-09 |acessodata=2023-02-06 |periódico=Revista Inter-Legere |número=35 |ultimo=Barros |primeiro=Valquiria da Silva |paginas=c29459–c29459 |lingua=pt |doi=10.21680/1982-1662.2022v5n35ID29459 |issn=1982-1662}}</ref>, com a percepção de ''corrupção'' da tradição religiosa ''original'', como uma fase de retrocesso evolutivo em que a Umbanda teria sido exposta ao barbarismo na forma de costumes vulgares e praticada por pessoas com "costumes rudes e defeitos psicológicos e étnicos"{{harvref|FEDERAÇÃO ESPÍRITA DE UMBANDA|1942|p=116}}. No limite, o caráter Africano da Umbanda era aceito na compreensão de ter-se originado no Egito, sendo então da parte mais "civilizada" do continente.{{harvref|FEDERAÇÃO ESPÍRITA DE UMBANDA|1942|p=114}}
 
 
O rastreio das raízes "genuínas" da Umbanda até ao Oriente, juntamente com a rejeição das raízes africanas, foi refletida na invenção de nova definição do termo "Umbanda", que é comprovadamente derivado do idioma Banto<ref name=":19" /><ref name=":20" />. Declarou-se que "Umbanda" vinha das palavras do [[sânscrito]] ''[[om|aum]]'' e ''bhanda'', termos que foram traduzidos como "o limite no ilimitado", "Princípio divino, luz radiante, a fonte da vida eterna, evolução constante".{{harvref|FEDERAÇÃO ESPÍRITA DE UMBANDA|1942|p=21 - 22}}{{harvref|SMITH|2004|p=271}}. A partir da década de 1950, os setores mais humildes da população umbandista composta por negros e mulatos começaram a contestar o distanciamento da Umbanda das práticas africanas. A "umbanda branca" se opunha à tendência de recuperar os valores africanos presentes na religiosidade popular.{{harvref|SILVA|2005|p=116}}
 
 
O segundo congresso ocorreu em 1961 evidenciando o crescimento da vertente branca da religião, que teve sua imagem reconstruída pela imprensa. Milhares de devotos compareceram ao [[Maracanãzinho]] com representantes de vários estados e a presença de políticos municipais e estaduais.{{harvref|SILVA|2005|p=116}} O jornal ''[[O Estado de S. Paulo]]'' noticiou a realização do congresso no Rio de Janeiro afirmando que a "preocupação central do Congresso parece ser a elaboração de um código que orientará a feitura de uma Carta Sinódica da Umbanda". No mesmo ano, o jornal ''[[Diário de S. Paulo]]'' publicou uma grande reportagem com o título "Saravá meu Pai Xangô, Saravá Mamãe Oxum", onde o jornalista descreve uma "sessão assistida pelos repórteres a convite do deputado gaúcho [[Moab Caldas]]".{{harvref|SILVA|2004|p=235 - 236}}
 
 
Em 1950, em resposta às perseguições que os terreiros sofriam por parte das autoridades civis bem como em resposta ao projeto de "embranquecimento" da Umbanda pregada pela União Espírita de Umbanda do Brasil, o pai de santo [[Tancredo da Silva Pinto]] liderou o movimento que deu origem à Federação Umbandista de Cultos Afro-Brasileiros.<ref name=":14">{{citar livro|título=Umbanda - Guia e Ritual Para Organização de Terreiros|ultimo=Pinto|primeiro=Tancredo da Silva|ultimo2=Freitas|primeiro2=Byron Torres de|editora=Eco|ano=1972|local=Rio de Janeiro}}</ref> A federação visava organizar e dar maior representatividade aos terreiros que sofriam preconceito por conta de seus ritos afro-brasileiros.<ref name=":14" /><ref name="ceubrio">{{citar livro|url=http://www.ceubrio.com.br/downloads/tata.de.inkice.tancredo.da.silva.pinto.pdf|titulo=Tata de Inquice Tancredo da Silva Pinto|autor=www.ceubrio.com.br|acessodata=09/11/2018}}</ref> A federação, que nasceu no [[Distrito Federal do Brasil (1891–1960)|Rio de Janeiro]], promoveu várias ações e eventos religiosos bem como se expandiu para os estados de [[Minas Gerais]], [[São Paulo (estado)|São Paulo]], [[Rio Grande do Sul]] e [[Pernambuco]].<ref name="ceubrio2">{{citar livro|url=http://www.ceubrio.com.br/downloads/tata.de.inkice.tancredo.da.silva.pinto.pdf|titulo=Tata de Inquice Tancredo da Silva Pinto|autor=www.ceubrio.com.br|acessodata=09/11/2018}}</ref> Defensora tenaz das origens africanas da Umbanda em contraposição ao grupo que pregava uma Umbanda com forte ênfase no [[Espiritismo|kardecismo]].<ref name=":14" /><ref name="ceubrio2" />
 
 
Mesmo após as tentativas de unificação, nas décadas de 40, 50 e 60 ainda existiam inúmeros terreiros no Rio de Janeiro não vinculados à União Espírita de Umbanda do Brasil, principalmente por discordarem das normativas propostas pela federação e por serem consideradas ''atividades isoladas''. Também não eram vinculadas à Federação Umbandista de Cultos Afro-Brasileiros. Esses terreiros realizavam práticas ritualistas sob a denominação de Umbanda, por exemplo a Tenda Espírita Fé, Esperança e Caridade e Pai Luiz D'Ângelo, praticante do segmento Umbanda de Almas e Angola.{{harvref|MARTINS|2007|p=17}}
 
 
=== Consolidação popular, apagamento histórico e racismo ===
 
No terceiro congresso realizado em 1973<ref name="Martins2006">MARTINS, Giovani (2006). [http://books.google.com/books?id=9dBSBQAAQBAJ&pg=PA16 ''Umbanda Em Santa Catarina'']. Clube de Autores. p. 16.</ref> a Umbanda afirmou-se em definitivo como uma religião expressiva no campo das atividades assistenciais. Além dos centros onde ocorriam as atividades espirituais, a religião contava com escolas, creches, ambulatórios etc. articuladas em torno da missão de promover a caridade e a ajuda.{{harvref|SILVA|2005|p=117}}
 
 
Assim, a Umbanda teve seu auge ao ser declarada como religião de muitas personalidades como os cantores [[Clara Nunes]], [[Dorival Caymmi]], [[Vinícius de Moraes]], [[Baden Powell (músico)|Baden Powell]], [[Bezerra da Silva]], [[Raul Seixas]], [[Martinho da Vila]] entre outros, e a opinião pública tornou-se mais favorável após a década 1980, porém essa aceitação mais aberta restringia e restringe-se às vertentes onde se operou um apagamento dos elementos negros em detrimento do sincretismo católico.{{harvref|REIS|2010|p=26}} Na década de 1990 a Umbanda e outras religiões de matrizes africanas foram alvo do crescente [[neopentecostalismo]] brasileiro. Em 2003, foi fundada a [[Faculdade de Teologia Umbandista]] (FTU), mantida pela Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino{{harvref|REIS|2010|p=27}} fundada em 1970 por [[Francisco Rivas Neto]], na [[Água Funda (bairro)|Água Funda]], São Paulo.{{harvref|NEGRÃO|1996|p=327}}
 
 
Apesar de a Umbanda ter sido anunciada como religião organizada por Zélio e seu guia espiritual Caboclo Sete Encruzilhadas, não foi a sua vertente que se tornou popular no Brasil.<ref name=":6">Vídeo-aula: ''"CABULA: a avó da Umbanda e mãe da Macumba!"'', canal Tradição - Mário Filho, no Youtube. Postado em 12 de março de 2021.</ref> A umbanda se popularizou através de sua raiz africanista encontrada na [[cabula]] do [[Rio de Janeiro (estado)|Rio de Janeiro]], também conhecida como macumba.<ref name=":6" /><ref name=":7">Vídeo-aula: ''"MACUMBA: A mãe da Umbanda"'', do canal Tradição - Mário Filho, no Youtube. Postado em 16 de abril de 2021.</ref> Há muitos estudos e fontes documentais que mostram que a raiz da Umbanda precede ao anúncio de Zélio, e que o trabalho dele foi ter incorporado elementos das religiões afro-brasileiras a um ritual com características espíritas kardecistas.<ref name=":7" />
 
 
Na Umbanda de Zélio, muitos elementos africanos como o uso de atabaques, a prática do sacrifício animal ritualístico, manifestações de exus e pombajiras e outros mais foram suprimidos.<ref name=":7" /> Tal processo foi chamado de ''"[[Branquitude|embranquecimento]]"'' da Umbanda, visto que tal prática tornava a Umbanda mais palatável aos costumes das [[Classe alta|classes alta]] e [[Classe média|média]] do Rio, sofrendo estas vertentes menos preconceito da sociedade, ao contrário das que mantiveram mais elementos africanos.<ref name=":7" /> Os terreiros como da Umbanda Popular, do Ritual Almas e Angola, do Omolocô e da Umbanda Traçada, praticados por pessoas de [[classe baixa]] e situados nas comunidades, zonas rurais e favelas conservaram mais práticas africanas próximas da antiga Macumba e do Candomblé.<ref name=":7" /> Um dos grandes proponentes ao retorno da Umbanda às suas raízes africanas foi o, já citado, escritor e pai de santo [[Tancredo da Silva Pinto]].<ref name=":7" />
 
 
== Características ==
 
===Crenças e práticas===
 
 
[[Ficheiro:Umbanda é declarada patrimônio imaterial do Rio de Janeiro (30232204183).jpg|thumb|Pai Zezinho de Ogum, pai de santo do terreiro Tenda Espírita Vovó Maria Conga de Aruanda, a primeira instituição cadastrada no mapa de terreiros de umbanda do Rio de Janeiro]]
 
[[Ficheiro:Umbanda é declarada patrimônio imaterial do Rio de Janeiro (30867828775).jpg|thumb|Tenda espírita Vovó Maria Conga de Aruanda, no Estácio, que foi a primeira instituição cadastrada no mapa de terreiros de umbanda da cidade do Rio de Janeiro]]
 
 
A Umbanda possui muitas vertentes com práticas diversas, nomeadas de diferentes formas{{harvref|BARBOSA JR.|2014|p=200}}, como Umbanda Nação, Umbandomblé, Umbanda Sagrada, Umbanda Omolocô, umbanda Crística, etc.{{harvref|AZEVEDO|2010|p=95}}{{harvref|AZEVEDO|2010|p=94}} Essas diferentes vertentes partilham o culto a entidades ancestrais e a espíritos associados a divindades diversas de cultos não só africanos, mas mesmo hindus, árabes, católicos, entre outros, a depender da vertente.{{harvref|AZEVEDO|2010|p=95}} Apesar, existem comuns a todas, sendo:{{harvref|MARTINS|2007|p=19}}{{harvref|AZEVEDO|2008|p=9}}{{harvref|PEIXOTO|2009|p=49-50}}
 
 
* Um [[monoteísta|deus único]] e [[onipresença|onipresente]], chamado pela tríade [[Olodumarê|Olódùmarè,]] [[Olorum]] e [[Oxalá]]. Na Umbanda Angola é [[Zambi]].{{Nota de rodapé|Nos terreiros marcadamente influenciados pelo [[Catolicismo]], Deus continua sendo representado pela [[Santíssima Trindade]]. Neste caso, a Trindade é representada por [[Olorum]] sendo a comunhão entre o [[Deus Pai|Pai]], neste caso [[Obatalá]]; o [[Deus Filho|Filho]] [[Jesus Cristo]], neste caso [[Oxalá]]; e [[Espírito Santo]], representado por [[Ifá]].<ref>{{citar livro|título=Umbanda: reecantamento na pós-modernidade?|ultimo=Machado|primeiro=Sandra Maria Chaves|editora=[[Universidade Católica de Goiás]]|ano=2003|local=[[Goiânia]]|página=56|páginas=135}}</ref>}}
 
* Crença nos [[Orixá]]s.
 
* Crença na existência de Guias ou [[Espírito|entidades espirituais]].
 
* [[Lei de causa e efeito]] pela qual os umbandistas pagam o bem recebido com o bem e o mal com a [[Lei divina|justiça divina]].{{harvref|RAMANUSH|p=16}}
 
 
A Umbanda se fundamenta na obediência a ensinamentos básicos de valores humanos, como a [[fraternidade]], a [[caridade]], a [[Preconceito|não discriminação]] e a [[coletividade]]. Além desses preceitos, também há necessidade de [[Mediunidade|práticas mediúnicas]] como servir de "aparelho" (o ''medium'') para viabilizar a comunicação [[Babalorixá|entre]] espíritos e Orixás com os seres humanos.{{harvref|RAMANUSH|p=16}}
 
 
A antropóloga brasileira Patrícia Birman falará o seguinte a respeito da diversidade de crença dentro da Umbanda e a unidade doutrinária na diversidade:<ref name=":02">{{citar livro|título=O Que é Umbanda|ultimo=BIRMAN|primeiro=Patrícia|editora=Brasiliense|ano=1983|series=Primeiros Passos|local=São Paulo|página=23-24}}</ref>
 
 
{{Quote|Entre os terreiros são encontradas diferenças sensíveis no modo de praticar a religião. Tais diferenças, contudo, se dão num nível que não impede a existência de uma crença comum e de alguns princípios respeitados por todos. Há, pois, uma certa ''unidade na diversidade''.
 
A diversidade se expressa nas várias e reconhecidas influências de outros credos na umbanda. Encontramos adeptos de umbanda que praticam a religião em combinação com o candomblé, com o catolicismo, que se dizem também espíritas, absorvendo os ensinamentos de Kardec e, entre estes, as variações continuam: centros que aceitam determinados princípios do candomblé e excluem outros, que se vinculam a uma tradição por muitos ignorada etc. Não há limites na capacidade umbandista de combinar, modificar, absorver práticas religiosas existentes dentro e fora desse campo fluido denominado "afro-brasileiro".
 
Fato é que os umbandistas desenvolveram formas próprias de lidar com essas características da sua religião. A segmentação, a dispersão, a multiplicidade se combinam de alguma maneira com a unidade, a doutrina, a hierarquia. Essas combinações estão claramente presentes nas formas como os religiosos elaboram a relação dos médiuns com os espíritos, mas formas pelas quais organizam a multiplicidade de santos num conjunto inteligível e como também conseguem, apesar da segmentação, reunir todos os fiéis numa mesma doutrina.}}
 
 
=== Panteão ===
 
{{Main|Linhas de Trabalho na Umbanda}}
 
O panteão Umbandista é formado por seus Orixás e entidades de trabalho. Os espíritos ([[entidade (religião)|entidades]]) que trabalham na Umbanda são organizados em ''[[linhas da Umbanda|linhas]]'' e ''falanges'' (legiões). Cada linha está sob a direção de um [[Orixá]] ou alguma entidade africana ou indígena, enquanto os nomes e configurações exatas variam dentro da Umbanda. São na maioria compostos a partir de divisões étnicas, por exemplo, "Povo de Moçambique", "Legião de Tupi-Guarani". Em geral, os espíritos nos rituais da umbanda se enquadram nestas categorias:{{harvref|PINN|2009|p=393}}
 
#[[Caboclo na Umbanda|Caboclos]], espíritos indígenas, como o Sete Encruzilhadas.
 
#[[Preto-velho|Pretos-velhos]], os espíritos de africanos escravizados.
 
# [[Crianças na umbanda|Crianças]].
 
#[[Exu de Umbanda|Exus]], mensageiros dos orixás; entidades mais próximas dos humanos, protegendo as suas estradas, caminhos.
 
#[[Pombagira|Pombajiras]], entidades da linha da esquerda com hierarquia própria.
 
 
Todas acima são chamadas "espíritos de luz", trabalhando exclusivamente propósitos considerados benignos. Na vertente da Umbanda Branca, extremamente sincretizada ao cristianismo, não se cultuam entidades como os [[Exu de Umbanda|Exus]], que são considerados espíritos banidos{{harvref|PINN|2009|p=393}}. Tradicionalmente, ao contrário, as raízes africanas da cosmovisão Umbandista não adota a divisão [[Maniqueísmo|maniqueísta]] entre bem e mal.<ref>Fernando Aparecido. ''[https://books.google.com.br/books?id=WD-uCQAAQBAJ&printsec=frontcover&dq=Exus+na+umbanda&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwj80c2Jvq7eAhUGIpAKHTncCFEQ6AEIVjAI#v=onepage&q=Exus%20na%20umbanda&f=false Teologia Básica De Umbanda]''. [S.l.: s.n.] p. 13-19.</ref>
 
 
=== Orixás ===
 
{{Ver artigo principal|Orixá}}
 
Os Orixás (''Òrìṣà),'' na [[cultura iorubá]], são divindades que podem ser masculinas, os Aborós (''aborò''), ou femininas, as Iabás (''Iyagba'').<ref>Lopes, Nei (2014). «Aboró». ''Enciclopédia brasileira da diáspora africana''. São Paulo: Selo Negro Edições.</ref> Etimologicamente, em tradução livre, Orixá significa "a divindade que habita a cabeça" (em iorubá, o''ri'' é cabeça e ''Xá'' é rei, divindade).<ref name="Júnior2014" /> Os orixás se relacionam com os [[elementos da natureza]] sendo interpretados como manifestações da mesma.<ref name="Júnior2014" /> A interpretação sobre o que significam os Orixás variará conforme a linha doutrinária, mesmo de terreiro para terreiro:<ref name="Júnior2014" /> Por exemplo, nas linhas mais sincretizadas com catolicismo, espiritismo e demais elementos [[Branquitude|brancos]], Orixás são considerados como manifestações e qualidades de Deus, enquanto nas vertentes que mais conservaram as tradições e cosmovisão africanas eles são entidades próprias.<ref name="Júnior2014" /> Ainda, terreiros mais próximos do Espiritismo e Catolicismo, não cultuam os Orixás de forma direta, e muitos de maneira alguma cultuam os Exus.<ref name=":14" />{{harvref|PINN|2009|p=393}} Terreiros com influência [[Jejes|Gêge]] e [[Angola]] cultuam os [[Vodunce|voduns]] e [[inquice]]s respectivamente. Pode ocorrer a mescla entre os tipos de divindades dependendo da tradição do terreiro.<ref name=":14" /> O sincretismo com os santos católicos varia principalmente de região para região, havendo duas grandes vertentes diferentes de dispersão, a da [[Bahia]] e a do [[Rio de Janeiro (estado)|Rio de Janeiro]].<ref name=":14" />
 
 
A grande maioria dos terreiros de Umbanda segue os [[orixá]]s-[[Iorubás|iorubá]] de forma semelhante ao [[Candomblé Queto|candomblé do Queto]]<ref name=":32">{{Citar web|url=https://ocandomble.com/2008/05/11/sincretismo/|titulo=Sincretismo|data=2008-05-10|acessodata=2021-09-27|website=Candomblé|lingua=pt-PT}}</ref> e sincretiza os orixás-iorubá com os santos católicos traçando as qualidades dos orixás e suas semelhanças com os santos.<ref name=":32" />
 
 
Em sua diversidade, há terreiros com influência de cultos [[Jejes|Mina-Gegê]] e [[Congos|Congo]].<ref name=":42">{{citar livro|título=As Mirongas de Umbanda|ultimo=PINTO|primeiro=Tancredo da Silva|ultimo2=FREITAS|primeiro2=Byron Torres de|editora=Gráfica Editora Aurora|ano=1957|edicao=3ª ed.|series=Coleção Espiritualista - Nº 4|local=Rio de Janeiro}}</ref> Nos de influência Mina-Gegê, denominam os Orixás de [[Vodunce|Voduns]],<ref name=":42" /> de forma semelhante do [[Candomblé Jeje]]. Nos de influência do rito Congo, semelhante ao [[Candomblé Banto|Candomblé Angola]], denominam os Orixás de [[Inquice]]s.<ref name=":42" /> Variam-se os nomes dependendo da casa.<ref name=":42" /> O sincretismo católico parte da divisão de Orixás Iorubás.<ref name=":42" /> Apesar de vários Orixás na Nação Congo serem denominados de forma diferente, as entidades possuem o mesmo nome em algumas ocasiões, além de muitos ritos semelhantes.<ref name=":42" />
 
 
===Ritos===
 
Os rituais da Umbanda visam evocar os Orixás e ancestrais e toda sua hierarquia composta por Orixás menores, [[Guia (religião)|Guias]] e Protetores.{{harvref|NETO|2002|p=269}} Os rituais não têm forma ou modo definido, variando de casa para casa, subordinados à tradição seguida por cada [[Pai-de-santo]] e cada entidade protetora do terreiro.{{harvref|MELANI|2008|p=34}} O local onde se dão as celebrações e o atendimento do público é geralmente uma casa denominada por ''Casa'' ou ''Tenda'' que contém um local apropriado para sessões, podendo ser um [[terreiro (religião)|terreiro]], aberto, ou um salão.<ref name="Zespo1960">ZESPO, Emanuel (1960). [http://books.google.com/books?id=6iRXAAAAMAAJ ''Codificação da lei de Umbanda'']. Editora Espiritualista. p. 91.</ref>
 
 
Alguns termos e rituais comumente mencionados:
 
* '''[[Gira]]s''', é como são chamadas as sessões onde se reúnem os espíritos de várias categorias, as giras podem ser festivas, de trabalho ou de treinamento.<ref name="Almeida2003">ALMEIDA, Paulo Newton de (2003). [http://books.google.com/books?id=yVNZAAAAMAAJ ''Umbanda: a caminho da luz'']. Pallas. p. 195. ISBN 978-85-347-0357-4.</ref>
 
* '''Bater cabeça''', é como é chamado o ato de [[prostração]], a reverência dada ao chefe do terreiro, por exemplo.<ref name="SchlesingerPorto1983">SCHLESINGER, Hugo; PORTO, Humberto (1983). [http://books.google.com/books?id=9XhZAAAAMAAJ ''Crenças, seitas e símbolos religiosos'']. Edições Paulinas. p. 67.</ref> O contexto desse gesto varia de terreiro para terreiro, sendo unânime que seja feito antes da defumação.{{harvref|RAMANUSH|p=37}}
 
* '''[[Defumação]]''', é usada para purificar o ambiente, através do seu aroma desfaz-se no ambiente todo o negativo expulsando os espíritos trevosos.{{harvref|BAPTISTA|2008|p=17 - 18}}
 
* '''[[Passe (umbanda)|Passe]]''', é o gesto de [[imposição de mãos]] presente também no [[kardecismo]]{{harvref|RAMANUSH|p=34}}
 
* '''[[Pontos riscados]]''' são diagramas desenhados no chão como ângulos, retas, símbolos representativos, desenhos geométricos, pontos cardeais, etc representando a assinatura do [[Guia (religião)|Guia]]{{harvref|RAMANUSH|p=35}}
 
* '''[[Pontos cantados]]''' são as músicas e cantos entoados como forma de louvor ou invocação.{{harvref|RAMANUSH|p=37}}
 
* '''Ebó''' (do [[Língua iorubá|iorubá]] "''Ẹbọ''", ''oferta'' ou ''oferenda''),<ref name="Karade1994">{{Citar livro|url=https://books.google.com/books?id=sHJeRY3ISbIC&pg=PA95&hl=pt-PT|título=The Handbook of Yoruba Religious Concepts|ultimo=Karade|primeiro=Baba Ifa|data=1994-01-15|editora=Weiser Books|lingua=en}}</ref> ou '''[[Oferendas nas religiões afro-brasileiras|Oferenda]]''', é a prática de dispor [[comida ritual]] e objetos específicos{{harvref|RAMANUSH|p=37}} nos templos ou locais ao ar livre, em dias e/ou para fins especiais, pedidos ou agradecimentos aos Guias e Orixás.{{harvref|RAMANUSH|p=37}} As vertentes com mais influência dos cultos africanos como a Umbanda de Nação se utiliza de [[ebó]]s que são para finalidades próprias como reequilibrar aspectos da vida da pessoa{{harvref|AZEVEDO|2009|p=55}}. Diferente da tradição africana,<ref>{{citar livro|título=Umbanda de Almas e Angola. Ritos, Magia e Africanidade|ultimo=Martins|primeiro=Giovani|editora=Ícone Editora|ano=2017|local=São Paulo|páginas=184|isbn=978-8527411844}}</ref><ref>{{Citar web|ultimo=da Silva Filho|primeiro=Mário Alves|url=https://templopanteranegra.com.br/umbanda-omoloko/|titulo=O que é Umbanda Omolokô?|data=2012|acessodata=25 de abril de 2021|website=Templo Caboclo Pantera Negra|publicado=Templo Caboclo Pantera Negra|arquivourl=https://web.archive.org/web/20210318075120/https://templopanteranegra.com.br/umbanda-omoloko/|arquivodata=25 de abril de 2021}}</ref> as casas de Umbanda que seguem [[Zélio Fernandino de Morais|Zélio]] não se utilizam do [[sacrifício de animais]].{{harvref|AZEVEDO|2010|p=95}}{{harvref|RAMANUSH|p=12}}{{harvref|MELTON|p=2935}}
 
* '''Obrigação''' é um ritual onde se oferenda animais aos Orixás ou Exus. "Nesses rituais se oferece o axorô, ou seja, o sangue que simboliza o axé de vida". "A noção de obrigação não se restringe somente ao ritual de corte, mas trata também da relação permanente com o Orixá assentado, dos cuidados com a água nas quartinhas [...]”<ref>{{citar livro|url=http://guaiaca.ufpel.edu.br:8080/handle/123456789/1597|título=A Princesa Batuqueira: etnografia sobre a interface entre o
 
movimento negro e as religiões de matriz africana em Pelotas, RS|ultimo=Ávila|primeiro=Carla Silva|editora=Universidade Federal de Pelotas|ano=2011|local=Pelotas|página=119}}</ref>
 
* '''Assentamento''' (em pedras, objetos, plantas, etc): É o local onde seu Orixá ou Exú é depositado. "O ''assentamento'' não “representa” o Orixá, o Acutá é o/a Orixá".<ref name=":21">{{citar livro|url=https://ocs.ige.unicamp.br/ojs/react/article/download/2797/2659|título=Aprontamento como cosmopolítica: os corpos e seus outros na religião de Linha Cruzada|ultimo=Ramos|primeiro=João Daniel Dorneles|editora=VI Reunião de Antropologia da Ciência e da Tecnologia|ano=2017}}</ref> O “Acutá não remete para um poder que do além se faz representar num mediador simbólico. O Acutá – esta pedra sagrada aqui e agora – já carrega de imediato a totalidade do ser da divindade. Esta pedra sagrada, aqui e agora, é o Xangô, o Ogum, a Iemanjá”.<ref>{{citar livro|url=https://seer.ufrgs.br/index.php/debatesdoner/article/view/5248|título=A filosofia política da religiosidade afro-brasileira como patrimônio cultural africano|ultimo=ANJOS|primeiro=José Carlos Gomes dos|editora=UFRGS|ano=2008|local=Porto Alegre|página=89}}</ref>
 
* '''[[Descarrego]]''' é o nome dado a rituais para limpeza espiritual ou livrar-se de cargas negativas, podem ser banhos com ervas especiais{{harvref|REIS|2010|p=264}} como a [[Petiveria tetrandra|guiné]],<ref name="Marques">SILVA, Breno Marques; MARQUES, Ednamara Batista Vasconcelos e. [http://books.google.com/books?id=C4u03ScfX5wC&pg=PA191 ''Criatividade E Espiritualidade'']. Editora Ground, 1997. p. 191. ISBN 978-85-7217-051-2.</ref> [[Espada-de-ogun|espada-de-ogum]]{{harvref|RAMANUSH|p=35}} etc. ou rituais como a roda de fogo" que usa [[pólvora]].{{harvref|REIS|2010|p=81}}
 
* '''[[Batismo]],''' como ocorre em muitas outras religiões, só pode ser realizado por líderes religiosos, no caso o [[babalorixá]] ou a [[ialorixá]].{{harvref|APARECIDO|2015|p=9}}
 
 
=== Hino ===
 
Originalmente com o título de ''Refletiu a Luz Divina'', tem autoria atribuída a José Manoel Alves. No Segundo Congresso Nacional de Umbanda, em 1961 no Rio de Janeiro, a música foi oficialmente reconhecida como o Hino da Umbanda.<ref name="Hino">{{Citar tese|titulo=A MÚSICA DE UMBANDA JOSEENSE NO PROCESSO COMPOSICIONAL|url=https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/194478/davino_gn_me_ia.pdf?sequence=4&isAllowed=y|tipo=Dissertação de Mestrado|sobrenome1=do Nascimento Davino|nome1=Guilherme|acessadoem=16 de agosto de 2021|local=São Paulo|universidade=Universidade Estadual Paulista|ano=2020|paginas=142|pagina=21}}</ref>
 
{{Quote|''Refletiu a luz divina<br />Em todo seu esplendor<br />É do Reino de Oxalá<br />Onde há paz e amor<br />Luz que refletiu na Terra<br />Luz que refletiu no Mar<br />Luz que veio de Aruanda<br />Para tudo iluminar<br />Umbanda é paz e amor<br />Um Mundo cheio de luz<br />É a força que nos dá vida<br />E a grandeza nos conduz<br />Avante filhos de fé<br />Como a nossa lei não há<br />Levando ao mundo inteiro<br />A bandeira de Oxalá.''<ref name="Hino"/>}}
 
 
==Organização==
 
===Espaço físico===
 
[[Ficheiro:Pretosvelhos2011 2.jpg|thumb|Vista de um Congá]]
 
{{Main|Templo de Umbanda}}
 
A parte física de um terreiro de umbanda contém seis elementos fundamentais: {{harvref|ALMEIDA|2003|p=82}}
 
 
* '''Peji''' (do [[Língua fon|fon]] "''Kpeji''"): É o ''Quarto de Santo'', uma peça onde se encontra o Congá.
 
* '''Congá:''' O altar, dentro do Quarto de Santo, onde se localizam as imagens e onde estão assentados os Orixás.
 
* '''Assentamento:''' "O ''assentamento'' não “representa” o Orixá, o Acutá é o/a Orixá".'''<ref name=":21" />'''
 
* '''Porteira''' ou '''Tronqueira'''
 
* '''Cruzeiro das Almas''' ou '''Casa das Almas'''{{harvref|ASSIS|2015|p=87}}
 
===Hierarquia===
 
[[Imagem:Umbanda é declarada patrimônio imaterial do Rio de Janeiro (30235532184).jpg|thumb|Maria da Guia, médium do terreiro Tenda Espírita Vovó Maria Conga de Aruanda]]
 
A hierarquia na Umbanda varia dependendo da quantidade de membros, de modo que pode dividir-se em um grupo administrativo e grupo espiritual{{harvref|APARECIDO|2015|p=37}}{{harvref|APARECIDO|2015|p=38}}{{harvref|APARECIDO|2015|p=39}} além de variar de acordo com o tipo de Umbanda (de Nação, Esotérica etc).
 
 
Os templos de Umbanda não possuem uma uniformidade quanto às hierarquias, pois sendo diversificada tanto quanto na ritualística seus títulos e cargos podem ser variados entre si.<ref name=":8" /> A hierarquia da linha de Nagô é a mais comum, existindo muitas variações dessa.<ref name=":8" />
 
 
Birman vai dizer o seguinte a respeito da fluidez organizacional da Umbanda:<ref name=":02"/>
 
 
{{Quote|No plano da organização social, a religião umbandista pode ser considerada um agregado de pequenas unidades que não formam um conjunto unitário. Não há, como na Igreja Católica, um centro bem estabelecido que hierarquiza e vincula todos os agentes religiosos. Aqui, ao contrário, o que domina é a dispersão. Cada pai-de-santo é senhor no seu terreiro, não havendo nenhuma autoridade superior por ele reconhecida. Há, portanto, uma multiplicidade de terreiros autônomos, embora sejam unidos na mesma crença, havendo também um esforço permanente por parte dos líderes umbandistas no sentido de promover uma unidade tanto doutrinária quanto na organização. Criam federações, tentam estabelecer formas de relacionamento entre os vários centros decisórios, tentam enfim enfrentar a dificuldade de conviver simultaneamente com formas de organização dispersas e tentativas de centralização.}}
 
 
Contudo, seguem abaixo as divisões hierárquica catalogadas, registradas e apresentadas por Tancredo da Silva Filho<ref name=":5">{{citar livro|título=Umbanda - Guia e Ritual para Organização de Terreiros|ultimo=Pinto|primeiro=Tancredo da Silva|ultimo2=Freitas|primeiro2=Byron Torres de|editora=Eco|ano=1972|local=Rio de Janeiro|página=30-33}}</ref>:
 
 
==== Linha de Nagô{{Nota de rodapé|Essas funções podem variar de acordo com o terreiro, porém funções como a de '''apetebi''' (a mulher filha de Oxum que, em muitos terreiros, é a única mulher que pode jogar os búzios), o '''ialaxé''' (o que cuida dos "axés" dos orixás, ou seja, todos os objetos e alimentos oferecidos aos oxirás), o '''babalaô''' (o que faz o jogo de búzios, obís e outras advinhações), o '''babalossaim''' (o homem responsável pela colheita das ervas sagradas e preparação de banhos e remédios naturais), o '''babaogé''' (sacerdote responsável pelo culto dos antepassados) são algumas das funções que são praticamente inexistentes na Umbanda, mas que são encontradas nas ramificações do Candomblé.<ref name=":8" />}}<ref name=":5" /> ====
 
* '''[[Pai-de-santo|Sacerdote (babalorixá/pai de santo)]]<ref name=":8">{{Citar web |ultimo=SAPO |url=https://lifestyle.sapo.pt/astral/praticas/cultos-a-natureza/artigos/hierarquia-da-umbanda-2 |titulo=Hierarquia da Umbanda |acessodata=2021-09-15 |website=SAPO Lifestyle |lingua=pt}}</ref>''' e '''[[mãe-de-santo|Sacerdotisa (ialorixá/mãe de santo)]]<ref name=":8" />''' : responsáveis por toda a atividade espiritual que ocorre no terreiro, como iniciar, conduzir e encerrar as giras e estabelecer as ordens e doutrinas passadas pelo astral.<ref name=":8" />
 
* '''Iaô''' ('''Pai Pequeno''' e '''mãe pequena)''': responsáveis na ausência dos pai ou mãe, têm os mesmos ensinamentos e participam de todos os rituais.<ref name=":8" />
 
*'''Abiã''' ou '''assistência:''' são as pessoas que começam a frequentar o terreiro sem que sejam iniciadas.<ref name=":8" />
 
*'''Iabacê''' ou '''cozinheiro de santo''': é o iaô encarregado de preparar as comidas ritualísticas. Na Umbanda, apesar de ser um cargo não muito comum na maioria dos terreiros, o trabalho é bem mais simples que no candomblé.<ref name=":8" />
 
*'''Ogãs'''
 
**'''[[Axogum|Ogã Axogum]] (ogã de corte''' ou '''mão de faca):''' é o ogã que tem o poder da mão de faca, ou seja, é quem tem a autorização perante o pai de santo e dos orixás para realizar qualquer matança (sacrifício de animais).<ref name=":8" /> Não são todos os terreiros de umbanda que possuem tal função, pois muitos deles não aceitam a imolação (sacríficio) animal.
 
** '''Ogã''' '''Alabê (Yatabaxê, curimbeiro''' ou '''atabaqueiro)''': responsável pela [[curimba]] e instrutor dos toques de [[atabaque]]s.{{harvref|PEIXOTO|2008|p=13-140}}<ref name=":8" /> É também responsável por tocar e cantar os pontos cantados nas giras além do ensino a novos ogãs.<ref name=":8" />
 
* '''Filhos de santo (Médiuns)<ref name=":8" />'''
 
**'''Médium iniciante''': médiuns que ainda não incorporam, sendo às vezes colocados como cambonos até adquirirem experiência.
 
** '''Médium em desenvolvimento''': médiuns em processo de desenvolvimento.
 
** '''Médium de trabalho''': médiuns que prestam consultas nas giras de atendimento e já passaram por todos os preceitos e obrigações (batismo, amaci e coroação).
 
** '''Cambono''': médium designado a auxiliar a entidade trabalhando como um intérprete entre a entidade e o consulente.<ref name=":8" />
 
 
==== Linha de Angola<ref name=":5" /> ====
 
 
* '''Otata:''' sacerdote chefe do terreiro.
 
* '''Otata ti inkice:''' o sacerdote que "faz" o santo.
 
* '''Mamêto''': mãe de inkice/mãe de santo.
 
* '''Muzenza:''' filha de santo, no ''gonzemo'' (santuário).
 
* '''Sarapabé:''' cambono.
 
 
==== Linha de Omoloko<ref name=":5" /> ====
 
 
* '''Tata:''' sacerdote-chefe do terreiro.
 
* '''Ganga:''' sacerdote.
 
* '''Ginja:''' sacerdotiza.
 
* '''Macóta:''' ajudante do ganga.
 
* '''Macamba:''' filho do terreiro feito.
 
* '''Camba:''' adepto/assistência.
 
* '''Cóta:''' zeladora do santo.
 
* '''Ogan (Ogã):'''
 
** '''Ogã colofé:''' ogã de confiança.
 
** '''Ogã de atabaque:''' ogã de tambor.
 
** '''Ogã do terreiro:''' ogã responsável pelo terreiro.
 
* '''Samba:''' dançarina sagrada.
 
* '''Kambone (Cambone):''' auxiliar, com os nomes de '''cambono de ebó''' e '''cambono de gira'''.
 
* '''Iabá:''' cozinheira ritualística.
 
 
==== Linha de Cambinda<ref name=":5" /> ====
 
 
* '''Ganga:''' sacerdote-chefe do terreiro.
 
* '''Tata:''' sacerdote.
 
* '''O restante:''' igual a Linha de Omoloko.
 
 
==== Linha de Gêge<ref name=":5" /> ====
 
 
* '''Vodúno:''' o sacerdote chefe.
 
* '''Vodunci:''' filha de santo.
 
 
==== Linha de Cáritas ====
 
{{Nota de rodapé|Em Umbanda: Guia e Ritual para Organização de Terreiros, Rio de Janeiro: Editora Eco, 1972, página 33, o autor Tancredo da Silva Pinto diz:
 
 
"Essa umbanda não tem organização própria, imita a dos umbandistas, mas usando sapatos brancos em soalhos taqueados. Muito espalhada no Estado da Guanabara, com o rótulo de "Umbanda de branco". Pratica a caridade sinceramente, com muita fé. Constitui a "Ordem de Cáritas da Umbanda", porque abre o centro com a prece de Cáritas, de muita força espiritual,"}}<ref name=":5" />
 
 
* '''Embanda:''' o chefe.
 
* '''Cassuêto:''' médium mais desenvolvido.
 
* '''Tempo-cassuêto:''' médium a se desenvolver.
 
* '''Kambone (Cambone):''' ajudante, que abre e fecha a gira.
 
* '''Ogan (Ogã):''' Tamboreiro, que canta e "puxa os pontos".
 
 
==Ramificações==
 
[[Ficheiro:Vertentes da Umbanda.png|miniaturadaimagem|450x450px|Vertentes da Umbanda]]
 
A umbanda possui ramificações que se diferenciam em rituais, métodos, hierarquia, etc. Mesmo pertencendo a um mesmo grupo, estudiosos concluem que a religião é extremamente diversificada sendo quase impossível encontrar um terreiro totalmente semelhante ao outro.{{carece de fontes}} Originalmente, a Umbanda surgiu a partir da Cabula. Simultaneamente surgiram quatro vertentes: ''Umbanda popular, Umbanda branca e demanda, Umbanda Almas e Angola e Umbanda Omolokô''. Todavia, considera-se a vertente iniciada por Zélio Fernandino de Moraes como sendo a primeira. Entre as vertentes mais conhecidas estão:<ref name="Júnior2014">Ademir Barbosa Júnior (2014). [http://books.google.com/books?id=FE68BAAAQBAJ&pg=PT35 ''O livro essencial de Umbanda'']. Universo dos Livros Editora. pp. 35 – 36. ISBN 978-85-7930-765-2.</ref><ref name="Aparecido2015">Fernando Aparecido (2015). [http://books.google.com/books?id=shavCQAAQBAJ&pg=PA84 ''Teologia Básica De Umbanda'']. Clube de Autores. p. 84.</ref>
 
 
=== Branca, de Cáritas e Mirim{{Nota de rodapé|A Macumba popular se dividirá em dois grupos principais: um atrelado ao Espiritismo, que irá abolir várias práticas consideradas primitivas e selvagens, como o sacrifício de animais e o uso de atabaques e um outro grupo que continuará com o seu curso normal, porém que serão relegados à marginalidade pela classe mais elitista. O primeiro grupo dará origem à Umbanda branca e demanda, de Zélio Fernandino de Moraes e o segundo grupo será conhecido como sendo Umbanda popular.<ref name="Não-nomeado-xXC1-1">{{citar livro|título=As religiões africanas no Brasil|ultimo=BASTIDE|primeiro=Roger|editora=Pioneira|ano=1985|edicao=2|local=São Paulo}}</ref>}}{{Nota de rodapé|Essa vertente também é conhecida como Ordem de Cáritas da Umbanda, umbanda de mesa, umbanda espírita e Umbanda branca.}} ===
 
 
==== Branca ====
 
Também chamada ''Alabanda''; ''Linha Branca de Umbanda e Demanda''; ''Umbanda Tradicional''; ''Umbanda de Mesa Branca''; ''Umbanda de Cáritas''; e ''Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas'',<ref name=":18">{{Citar web|ultimo=Negra|primeiro=Templo Caboclo Pantera|url=https://templopanteranegra.com.br/umbanda-omoloko/as-umbandas-dentro-da-umbanda/|titulo=As “Umbandas” dentro da Umbanda|acessodata=2023-02-04|website=Templo Caboclo Pantera Negra}}</ref> é a primeiras vertente que se organizou como estrutura religiosa, iniciada pelas entidades Caboclo das Sete Encruzilhadas, Pai Antônio e Orixá Malê, através do médium [[Zélio Fernandino de Morais]]<ref name=":18" /> e pela ala elitista e [[Branquitude|embranquecida]] da Macumba do Rio de Janeiro que tinha a intenção de retirar da mesma os [[Religião iorubá|elementos iorubás]], considerados pelo seu racismo como "primitivos" e "selvagens".<ref name="Não-nomeado-xXC1-1">{{citar livro|título=As religiões africanas no Brasil|ultimo=BASTIDE|primeiro=Roger|editora=Pioneira|ano=1985|edicao=2|local=São Paulo}}</ref> Baseia-se nos princípios da [[caridade]] e fraternidade do [[iluminismo]].<ref>{{Citar web |url=https://www.tensp.org/blank |titulo=Zélio Fernandino de Moraes |acessodata=25 de setembro de 2021 |website=Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade |lingua=pt}}</ref> Cultua Caboclos, Preto-Velhos e Crianças, mas renega [[Exu de Umbanda|Exus]], tidos como ''espíritos caídos'', que possuem papel somente em descarregos.<ref name=":17">Vídeo: ''"A Linha Branca de Umbanda Explicada!"'', do canal Linha Branca de Umbanda, no [[YouTube]].
 
 
Aos 2:28 do vídeo a mãe-de-santo Lygia da Cunha, bisneta de Zélio Fernandino de Moraes diz:
 
 
''"Não digo para você que não venha um cigano, um boiadeiro, não sei, mas nós não temos sessão (para tais linhas), como não temos para exu também. Exu para meu avô era aquele que ajudava e que ao chamar na hora que a gente precisasse fazer a descarga, fazer um desfeito, desfazer algumas coisas nas sessões de descarga em que ele vem para organizar, mas não temos sessão de exu. Exu para nós não dá consulta.'' (o neto de Lygia, Leonardo Cunha interrompe e diz: ''"Não dá passe!"''). ''Ele não dá passe. Não usamos nenhum enfeite. Adorno pra mim não existe. Para nós."''
 
 
Leonardo Cunha, neto de Lygia e bisneto de Zélio diz, a partir de 3:20:
 
 
''"O que era passado para a gente é que a gente refutasse qualquer tipo de mistificação ou valorização excessiva, as vezes, de coisas materiais, o uso do atabaque também nunca usamos e, ao contrário do que eu já li (...) a polícia foi um problema nos primórdios da Umbanda, mas não se usava atabaque por conta da polícia. É por que o "Chefe"'' (se referindo ao Caboclo das Sete Encruzilhadas) ''nunca quis, nunca permitiu e nunca foi interesse de ninguém no momento em que ele foi quem trouxe a Umbanda até nós. Para nós, nesta casa, é ponto cantado. Nem palmas nós usamos por que o "Chefe" não queria."''</ref> Não há giras de Exus e os mesmos não dão consultas.<ref name=":17" /> Como se vê, a vertente não é adepta das práticas africanas, porém nla se usam guias, fumo, defumadores, etc.<ref name=":3">{{Citar web |url=https://www.astrocentro.com.br/blog/umbanda/umbanda-branca/ |titulo=Você conhece a Umbanda branca? Aprenda agora as suas diferenças |data=2017-11-21 |acessodata=2021-05-02 |website=Blog Astrocentro |lingua=pt-BR}}</ref> Vinculada aos princípios espíritas do [[Espiritismo|Kardecismo]], os cantos são cantados [[a cappella|à capela]] sem palmas.<ref name=":17" /><ref>{{Citar web |url=https://www.tensp.org/pontoscantados |titulo=PONTOS CANTADOS |acessodata=2021-09-25 |website=Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade |lingua=pt}}</ref> É considerada por muitos como a primeira a ter-se organizado em estrutura religiosa, é uma reformulação dos rituais da macumba/cabula sob uma visão influenciada pelo [[Espiritismo]], mas não se atendo a esse.<ref name=":13">''Entre a Macumba e o Espiritismo: uma análise do discurso dos intelectuais de umbanda durante o Estado Novo'', CAOS - Revista Eletrônica de Ciências Sociais, Número 14 - Setembro de 2009. Pág. 60-85. "A manifestação de espíritos de negros e de índios, tão comuns na umbanda, já ocorria espontaneamente nos rituais da macumba desde meados do século XVIII. Longe de ser um culto organizado, a macumba era um agregado de elementos da cabula bantu, do candomblé jeje-nagô, das tradições indígenas e do catolicismo popular, sem o suporte de uma doutrina capaz de integrar os diversos pedaços que lhe davam forma. É desse conjunto heterogêneo, acrescida de elementos egressos do Espiritismo, que nascerá a nova religião."</ref><ref>{{citar livro|título=A morte branca do feiticeiro negro: Umbanda e sociedade brasileira.|ultimo=ORTIZ|primeiro=Renato|editora=Brasiliense|ano=1999|local=São Paulo}}</ref>
 
 
==== Cáritas ====
 
Chama-se Umbanda de Cáritas{{Nota de rodapé|Essa vertente também é conhecida como Ordem de Cáritas da Umbanda, ''umbanda de mesa'', ''umbanda espírita'' e '''umbanda branca''.}}<ref name=":5" /><ref>{{citar periódico |titulo=Doença e Morte na Umbanda Branca: A Legião Branca Mestre Jesus |jornal=Estudos & Pesquisas em Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro |publicado=Universidade Estadual do Rio de Janeiro / Universidade de São Paulo |ultimo=Lemos |primeiro=Daniela Torres de Andrade |ultimo2=Bairrão |primeiro2=José Francisco Miguel Henriques |pagina=https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revispsi/article/view/8431/6263}}</ref> os centros oriundos da Umbanda Branca e Demanda que, possuindo ainda mais influência do [[Espiritismo]] e do catolicismo,<ref name=":0">{{Citar web|ultimo=Redação|ultimo2=|url=https://umbandaeucurto.com/vertentes-de-umbanda-umbanda-kardecista/|titulo=Vertentes de Umbanda II: Umbanda Kardecista|data=21 de setembro de 2017|acessodata=26 de abril de 2021|website=Umbanda Eu Curto|lingua=pt-BR|arquivourl=https://web.archive.org/web/20210426153937/https://umbandaeucurto.com/vertentes-de-umbanda-umbanda-kardecista/|arquivodata=26 de abril de 2021}}</ref> abrem as suas reuniões com a ''Prece de Cáritas'',<ref name=":5" /> além de não trabalhar com Exus e Pombajiras, nem utilizar fumo, álcool, pontos cantados e [[atabaque]]s.<ref name="Júnior2014" /><ref name=":3" /><ref name=":0" /> Nessa vertente não há qualquer culto aos Orixás que, quando aparecem, é em extremo sincretismo com santos católicos.<ref name=":3" />
 
 
==== Mirim<ref name=":0" /> ====
 
A umbanda mirim, ou ainda ''Aumbandã'' e ''Escola da Vida'', é outra das vertentes que excluiu elementos africanos, ainda que não sincretize santos católicos. Foi fundamentada pelo médium Benjamin Gonçalves Figueiredo (26 de dezembro de 1902 – 3 de dezembro de 1986), no Rio de Janeiro, RJ, em 13 de março de 1924, com a fundação da Tenda Espírita Mirim. Ainda que sem sincretismo católico, seus Orixás (nove: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã) foram reinterpretados de maneira totalmente distinta e desvinculada das tradições africanas. Possui sete linhas de trabalho: de Oxalá, de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, do Oriente (onde agrupa as entidades orientais) e de Yofá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas). Não há gira para Exus e Pomba-giras, pois esses são considerados sendo exclusivamente [[Quimbanda|Quimbandeiros]].<ref name=":18" />
 
 
=== Popular ===
 
Umbanda popular,{{Nota de rodapé|A Macumba se dividirá em dois grupos principais: um atrelado ao Espiritismo, que irá abolir várias práticas consideradas primitivas e selvagens, como o sacrifício de animais e o uso de atabaques e um outro grupo que continuará com o seu curso normal, porém que serão relegados à marginalidade pela classe. O primeiro grupo dará origem à Umbanda branca e demanda, de Zélio Fernandino de Moraes e o segundo grupo será conhecido como sendo Umbanda popular.<ref name="Não-nomeado-xXC1-1"/>}} também chamada umbanda cruzada e umbanda mística, é uma das primeiras vertentes da Umbanda, sendo a mais popular e aberta a sincretismos.<ref name="Não-nomeado-xXC1-1"/> Sua origem se encontra nas antigas casas de Macumba dos morros e comunidades do [[Rio de Janeiro (estado)|Rio de Janeiro]] que mantiveram seus rituais originais. Utiliza-se de ritos africanos, católicos, [[Ocultismo|ocultistas]] e, em baixo grau, espíritas. É a vertente mais flexível em termos ritualísticos e de costumes.<ref>{{Citar web |ultimo=Celete |primeiro=Lucila |url=https://saltoparaonovo.com.br/umbanda-popular/ |titulo=Umbanda Popular |data=22 de novembro de 2018 |acessodata=26 de abril de 2021 |website=Salto para o Novo |lingua=pt-BR |arquivourl=https://web.archive.org/web/20210426011305/https://saltoparaonovo.com.br/umbanda-popular/ |arquivodata=25 de abril de 2021}}</ref> Foi relegada à marginalidade por umbandistas da elite branca que rejeitavam os rituais mais africanizados.<ref name="Não-nomeado-xXC1-1"/>
 
 
Há três versões para as linhas de trabalho na Umbanda Popular: Na mais antiga, são consideradas a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá (onde inclui as Crianças), de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô (onde inclui Xangô e Iansã), do Oriente (onde agrupa as entidades orientais) e das Almas (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas). Na intermediária, também sete: de Oxalá, de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô (onde inclui Xangô e Iansã), das Crianças e das Almas (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas). E, na mais recente, as linha de trabalho dividem-se pelo ''tipo'' de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos(as), etc.<ref name=":18" />
 
 
=== Traçadas ===
 
Umbanda traçada{{Nota de rodapé|Essa vertente também é conhecida como '''Umbandomblé'''.}} é um termo guarda-chuva para as vertentes que conservaram maior influência das raízes [[candomblé|candomblecistas]].<ref>{{Citar web|ultimo=Celete|primeiro=Lucila|url=https://saltoparaonovo.com.br/umbandomble|titulo=Umbandomblé|data=21 de novembro de 2018|acessodata=25 de abril de 2021|website=Salto para o Novo|lingua=pt-BR|arquivourl=https://web.archive.org/web/20210426012317/https://saltoparaonovo.com.br/umbandomble/|arquivodata=25 de abril de 2021}}</ref><ref>{{Citar web|url=https://www.entreriosjornal.com.br/coluna-conhecendo-a-umbanda-1685|titulo=Conhecendo a Umbanda|data=5 de fevereiro de 2021|acessodata=7 de junho de 2021|publicado=Jornal Entre Rios|arquivourl=https://archive.ph/K7lRA|arquivodata=7 de junho de 2021}}</ref>
 
 
A Umbanda ''de Almas e Angola'' também é chamada de Umbanda Traçada por ter esta semelhança característica. É uma das primeiras vertentes, surgida da Umbandização de antigas casas de Cabula e Banto, e utiliza-se, principalmente, de ritos africanos do Banto.<ref name=":522"/><ref name="Júnior2014" /> Cultua nove Orixás bastante sincretizados ao catolicismo: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã, e possui sete linhas de trabalho: de Oxalá, do Povo d’Água (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã e Iansã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, das Beijadas (onde agrupa as Crianças) e das Almas (onde inclui Obaluaiê e agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).<ref name=":18" />
 
 
A umbanda omolocô, também pode ser conhecida como ''Umbanda Traçada'', devido às semelhanças em termos de influência tradicional africana. Seu culto, também antigo, foi sistematizado a partir da década de 1950 no Rio de Janeiro por [[Tancredo da Silva Pinto|Tata Tancredo da Silva Pinto]].<ref name=":522"/> Sua origem se encontra nas antigas casas de cabula banto e Omolocô, sendo um culto africanista aos Orixás, aos guias e [[Linhas da Umbanda]] bem similar e próximo ao [[candomblé]], ainda que havendo forte sincretismo presente.<ref name=":522"/><ref name=":14" /><ref name=":6" /><ref name=":7" /><ref name=":18" />
 
 
O Umbandomblé são casas oirundas da umbandização de antigas casas de [[candomblé]], notadamente as de Candomblé de Caboclo, já desde os primórdios. Em alguns casos, o mesmo pai-de-santo (ou mãe-de-santo) celebra tanto as giras de Umbanda quanto o culto do Candomblé, porém em sessões diferenciadas por dias e horários. O sincretismo com santos católicos é mínimo, sendo os Orixás fortemente vinculados às tradições africanas, principalmente as da nação Ketu, podendo inclusive ocorrer a presença de outras entidades no panteão que não são encontrados nas demais vertentes da Umbanda (Oxalufã, Oxaguiã, Ossain, Obá, Ewá, Logun-Edé, Oxumaré). Considera-se como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc, e os trabalhos são realizados por vários tipos de entidades como Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras e Malandros(as).<ref name=":18" /> Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens dos Orixás na representação africana, fumo, defumadores, velas, bebidas e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas nos Candomblés, incluindo o sacrifício de animais, podendo ser encontrado, também, curimbas cantadas em línguas africanas (banto ou iorubá).<ref name=":18" />
 
 
=== Outras vertentes ===
 
 
*'''Umbanda de caboclo''': tem influência da cultura indígena brasileira, trabalhando com caboclos. Não trabalha com [[orixá]]s.
 
*'''Umbanda esotérica''': seu maior difusor foi [[Woodrow Wilson da Matta e Silva|W.W. da Matta e Silva]] (Mestre Yapacany), considerada como um conjunto de leis divinas.<ref name="Itaoman1990">Itaoman (1990). [http://books.google.com/books?id=2gk0Xuvhh0oC&pg=PA11 ''Pemba: a grafia sagrada dos orixás'']. Thesaurus Editora. p. 11. ISBN 978-85-7062-020-0.</ref>
 
*'''Umbanda iniciática''': derivada da Umbanda esotérica, foi fundada por Pai [[Francisco Rivas Neto]] (Mestre umbanda Yamunisiddha Arhapiagha), com influência iniciática oriental,como uso de [[mantra]]s indianos e do [[Sânscrito]] e também do [[Candomblé Queto|candomblé do queto]].<ref>{{Citar web |url=https://www.oicd.com.br/pai-rivas |titulo=Pai Rivas |acessodata=2021-06-11 |website=OICD - Pai Rivas |lingua=pt}}</ref><ref>Vídeo: ''"Babá Rivas Ty Òsìyàn - Breve Reverência",'' no canal RIVAS - OICD, no Youtube.</ref>
 
*'''Umbanda Sagrada''': é a vertente iniciada a partir dos ensinamentos transmitidos por [[Rubens Saraceni]], através de psicografias ditadas por Pai Benedito de Aruanda no início da [[década de 90]].<ref name=":2">{{Citar web |ultimo=D'Obá |primeiro=Pirro |url=https://umbandauthis.blogspot.com/2016/12/a-historia-de-rubens-saraceni.html |titulo=A História de Rubens Saraceni |data=9 de dezembro de 2016 |acessodata=27 de abril de 2021 |website=Umbanda UTHiS! |publicado=Umbanda UTHiS! |arquivourl=https://web.archive.org/web/20210427170306/https://umbandauthis.blogspot.com/2016/12/a-historia-de-rubens-saraceni.html |arquivodata=27 de abril de 2021}}</ref> A partir dessa linha surgiram a ''Associação Umbandista e Espiritualista do Estado de São Paulo'' e o ''Curso de Teologia Umbandista'' (1996). Além das práticas religiosas tradicionais da Umbanda, a vertente também incorpora elementos da [[Religiões indianas|espiritualidade oriental]].<ref name=":2" /> Apesar de ser mais forte no estado de [[São Paulo (estado)|São Paulo]], é bem difundida e divulgada no país inteiro através de seus cursos, aulas e vídeos na internet.<ref name=":2" />
 
*'''Umbandaime''': é o sincretismo entre umbanda e [[Santo Daime]].<ref name=":1">{{Citar web |ultimo=Oliveira |primeiro=Frank |url=https://www.umbandaconsciente.com.br/umbandaime |titulo=Umbandaime |data=11 de agosto de 2009 |acessodata=26 de abril de 2021 |website=Umbanda Consciente |lingua=pt-br |arquivourl=https://web.archive.org/web/20210426160250/https://www.umbandaconsciente.com.br/umbandaime |arquivodata=26 de abril de 2021}}</ref>
 
Mesmo pontuando tais linhas, de acordo com estudiosos da área, cada terreiro possui sua tradição com modalidades demasiadamente diferenciadas entre si, correspondendo assim apenas a uma parcela dos participantes dessa religião.<ref name=":4">{{citar periódico |url=https://neip.info/novo/wp-content/uploads/2015/04/fernandes_linhas_falanges_umbanda_2014.pdf |titulo=Entre linhas e falanges: A diversidade da Umbanda na contemporaneidade |data=7 de junho de 2021 |acessodata=7 de junho de 2021 |jornal=Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos |publicado=ABESUP – Associação Brasileira de Estudos Sociais de Substâncias Psicoativas |ultimo=Fernandes |primeiro=Saulo Conde |arquivourl=https://web.archive.org/web/20210607164333/https://neip.info/novo/wp-content/uploads/2015/04/fernandes_linhas_falanges_umbanda_2014.pdf |arquivodata=7 de junho de 2021}}</ref> A umbanda é extremamente aberta e diversificada, apesar de ter seus princípios e bases religiosos.<ref name=":4" />
 
 
== Perseguição ==
 
 
=== Era Vargas até a década de 1950 ===
 
Assim como outras religiões afro-brasileiras, a Umbanda sofreu repressão política aberta durante a era [[Era Vargas|Vargas]], até ao início de 1950. Uma lei de 1934 colocava estas religiões sobre a jurisdição do Departamento de Tóxicos e Mistificações da polícia de modo que era preciso um registro especial para funcionarem. Durante esses anos vários grupos se mantinham na clandestinidade ou, quando se registravam, procuravam omitir suas ligações ou inspirações africanas registrando-se como sendo apenas "espiritistas".{{harvref|KLOPPENBURG|1991|p=38}}
 
 
Em 1946, o escritor [[Jorge Amado]], na época deputado federal pelo [[Partido Comunista Brasileiro]] de São Paulo, propôs uma emenda à Constituição garantindo a liberdade de culto no Brasil.<ref>{{Citar web|url=https://vermelho.org.br/coluna/voce-e-evangelico-agradeca-a-um-comunista/|titulo=Você é evangélico? Agradeça a um comunista!|acessodata=2023-02-05|website=Vermelho|lingua=pt-BR}}</ref><ref>{{citar web|ultimo=Freire Barbosa|primeiro=G.H.|url=https://outraspalavras.net/direitosouprivilegios/quem-defende-a-liberdade-de-culto/|titulo=Quem defende a liberdade de culto|data=15-01-2019|acessodata=05-02-2023|website=Outras Palavras}}</ref><ref>{{citar web|ultimo=Machado|primeiro=Lara|url=https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-caminho-de-exu-da-prisao-ao-museu/|titulo=O caminho de Exu, da prisão ao museu|data=02-02-2023|acessodata=05-02-2023|website=Outras Palavras}}</ref> O texto foi aprovado, e com isso os terreiros passaram a ter o amparo da lei. Mas a omissão, [[Branquitude|embranquecimento]], ou [[Negritude|desafricanização]]{{harvref|NASCIMENTO|2008|p=298}} que rejeitava as influências tradicionais africanas já havia sido estabelecida claramente no I Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda realizado em 1941, que definiu para seus participantes que a raiz da Umbanda provinha de "antigas religiões e filosofias da [[Índia]]".{{harvref|KLOPPENBURG|1991|p=37}}{{harvref|ROCHA|2013|p=228-229}} [[Roger Bastide]] argumentou que o [[espiritismo]] "branqueia" ou "europeíza" a Umbanda, distorcendo suas reais raízes africanas.{{harvref|TAYLOR|2008|p=393}}
 
 
=== Perseguição do protestantismo neopentecostal ===
 
No Brasil, a Umbanda e demais religiões de matrizes africanas sofrem com a [[intolerância religiosa]],{{harvref|BARBOSA JR.|2014|p=232}} sendo as religiões neopentecostais ditas Renovadas de maior intolerância em relação à Umbanda e ao Candomblé.{{harvref|FERNANDES|1998|p=82}}
 
 
Em 1997, o bispo [[Edir Macedo]], líder da [[Igreja Universal do Reino de Deus]], lança um livro sobre Orixás, Caboclos e Guias que se tornou leitura obrigatória para [[Evangelicalismo|evangelicalistas]] [[Pentecostalismo|pentecostais]], [[Neopentecostalismo|neopentecostais]] e até mesmo [[Protestantismo histórico|tradicionais]].<ref name=":12">{{Citar periódico |url=http://tede.metodista.br/jspui/handle/tede/546 |titulo=O DISCURSO DE EDIR MACEDO NO LIVRO ORIXÁS, CABOCLOS E GUIAS. DEUSES OU DEMÔNIOS?: IMPACTOS E IMPASSES NO CENÁRIO RELIGIOSO BRASILEIRO |data=2010-03-11 |acessodata=2021-09-15 |ultimo=Santos |primeiro=Valdelice Conceição dos}}</ref> O livro relaciona a Umbanda ao satanismo para tentar dar razão às práticas de "exorcismo" de sua religião.<ref name=":12" /> Em 2005, a Justiça Brasileira determinou a retirada de circulação de todos os exemplares do livro por conta de seu teor [[Preconceito contra religiões afro-brasileiras|preconceituoso contra as religiões afro-brasileiras]].<ref name="OESP-2005-NOV-10/UNIVERSAL">[http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2005/not20051110p3581.htm Teor preconceituoso faz Justiça proibir livro de Edir Macedo] - OESP, 10 de novembro de 2005</ref><ref name="CONJUR-2006/RECORD-IURD">[http://www.conjur.com.br/2006-fev-14/edir_macedo_processado_descaminho?imprimir=1 Dono e diretores da Record são processados por descaminho] Conjur, 2006</ref> Mas, um ano depois, o [[Tribunal Regional Federal da 1ª Região]] liberou a venda com a justificativa de que a proibição contrariava o princípio da [[liberdade de expressão]], garantido pela [[Constituição Federal Brasileira]].<ref>{{citar web |url=http://expresso-noticia.jusbrasil.com.br/noticias/136368/trf-libera-circulacao-do-livro-de-edir-macedo |titulo=TRF libera circulação do livro de Edir Macedo |acessodata=05/01/2012 |obra=expresso-noticia.jusbrasil.com.br |arquivourl=http://www.archive.today/XuRy2 |arquivodata=2014}}</ref>
 

Edição das 19h49min de 1 de outubro de 2025